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6 de Abril de 2020

A crise hídrica e o crescimento das cidades

Fernando Clark Nunes, Engenheiro Civil
Publicado por Fernando Clark Nunes
há 5 anos

Sobre a “Crise da Água” que está em debates atualmente, vou expor meu ponto de vista. Não cabe aqui a apresentação de um estudo hidrológico uma vez que a literatura está repleta de informações e eu poderia apenas dizer que hidrologia é uma ciência estatística que tem suas bases no ciclo de evaporação, condensação e precipitação, o que qualquer criança aprende na escola. Creio que o que deve ser questionado é o limite do crescimento. Eu vejo que o atual modelo humano é de desenvolvimento a “qualquer custo”. Isso ficou claro, por exemplo, no “slogan” do século XX que era “São Paulo não pode parar”, lembram?

O que vou afirmar aqui é que São Paulo tem que parar de crescer. E mais: Precisa encolher a sua população, pois já excedeu o limite sustentável. Nada será de simples solução. Mas, embora o processo seja lento, é a única saída: estrada afora para onde haja chance de sobrevivência.

Por que, por exemplo, para ir de Florianópolis para Curitiba, precisa-se fazer escala em Congonhas ou em Guarulhos? Por que para voar de Porto Alegre/RS para Passo Fundo/RS, tem que se fazer uma escala em São Paulo? De Chapecó/SC para Foz do Iguaçu/PR, escala em Guarulhos?! Absurdos que só mesmo no Brasil mal planejado acontecem.

Muitas das indústrias de São Paulo terão que ir para o interior de outros estados antes que morram de sede. E o modelo de "desenvolvimento" do nosso país é para o alto (prédios e mais prédios) com o aval do poder municipal, que muitas vezes prefere apenas ver a arrecadação de IPTU, e que dificilmente consegue fazer as contas do investimento em infra-estrutura para manter a qualidade de vida da população em decorrência do aumento da densidade demográfica.

É o planejamento sem noção de sustentabilidade. Infelizmente o que está acontecendo é previsível. E vai piorar se não frearmos tal modelo de desenvolvimento “insustentável”.

Poderíamos fazer várias transposições de bacias, mas entendo que deveria continuar sendo proibida essa medida, uma vez que estaríamos utilizando apenas um paliativo que beneficiaria uma bacia hidrográfica, mas prejudicaria a outra. Isso serviria para “apagar o incêndio”, mas não resolverá a questão básica. Na verdade seria uma medida prejudicial por ofertar uma quantidade de água desviada ou “roubada” e que também poderá ampliar o desequilíbrio como um todo.

Outros questionamentos:

Que tal São Paulo e o Brasil aprenderem a economizar água? Ou melhor, que tal acabarmos com o desperdício de 37% da nossa água tratada? Claro que temos que economizar. Mesmo assim, chegaremos a um limite (que está próximo) se tal crescimento for realmente “inevitável".

Claro que já chegamos num ponto em que, motivados pelo crescimento, temos que combater o desperdício (e isto já está sendo feito bem como algumas providências para reuso de águas servidas), mas temos de buscar novos mananciais cada vez mais distantes e até a água do mar a altos custos.

Eu defendo o crescimento sim, mas em qualidade de vida, pois o planeta não comporta indefinido aumento populacional e, por mais tecnologia que se empregue, há que limitá-lo por bem ou por mal. Prefiro que seja por bem, com medidas concretas de informação, educação, etc. Para se implantar um empreendimento é necessário um estudo ambiental. Para se ter filhos não. Alguns países ditos desenvolvidos estão com crescimento populacional zero. Mas não é o caso dos países mais pobres, onde o Brasil se encaixa. O velho slogan" São Paulo não pode parar " já era. São Paulo (e outros grandes centros) vão ter que parar de crescer.

A política é limitar o crescimento do meio urbano e algum retorno ao meio rural. Isso se faz através de Plano Diretor. Esses planos criam um zoneamento das áreas urbanas e têm que impedir a concessão de alvarás para construção, ampliação e tudo que possa aumentar áreas construídas e taxas de ocupação.

Por exemplo, vamos para nosso Distrito Federal: Brasília foi concebida para ser a sede administrativa do país com até 500 mil habitantes (o que é mais que suficiente para uma capital federal). A capital dos Estados Unidos, Washington permanece há anos com uma população estável, enquanto a nossa só incha a cada censo. Grandes cidades terão de estacionar em algum ponto de seu crescimento, pois, quando isso é ultrapassado, sobrevêm o caos urbano como é o caso de São Paulo, onde até o moderno Metrô está saturado.

Enfim, entendo que a população do mundo, principalmente das cidades, tenha que parar de crescer de imediato. E reduzir a ocupação, embora possa parecer utopia, será viável se planejado a médio e longo prazo. Aumentar os espaços públicos, praças, etc, onde já existam imóveis em estado de degradação exige um investimento que é possível. Novas indústrias e empreendimentos podem ser impedidos de se implantar, seja através de pesadas taxas ambientais ou de não liberação de licenças ambientais, o que é mais simples no caso.

Isso irá automaticamente obrigar as empresas a reverem seus planos de expansão. Elas provavelmente irão filtrar seus investimentos na cidade e olhar para o interior, onde exista possibilidade de crescimento sustentável. E a engenharia irá se preocupar com novos desafios, especialmente em planejamento e dar muito maior importância a obras de infraestrutura.

De que adianta termos prédios de alto gabarito com conseqüente aumento da densidade demográfica em locais sem facilidade de transporte e sem áreas livres para lazer, enormes dificuldades de estacionar, ou mesmo em ruas de difícil acesso que criam inúmeros corredores estreitos que apenas geram lentidão no trânsito.

Espero que possamos crescer sim, mas que a engenharia contribua para que o país e o mundo cresçam não em aumento e em concentração populacional, mas em qualidade de vida. Assim a água será suficiente para todos em quantidade e qualidade.

1 Comentário

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Colhemos atualmente os frutos de um crescimento desenfreado que deixara de respeitar características mínimas do meio ambiente. Carregando a ideia de que pudemos sobrepujar as limitações, fomos iludidos em um sistema que só está prejudicando a nós mesmos. Cabe agora, não só aos governantes, procurar uma alternativa satisfatória que combata o modelo atual, ou pelo menos o limite.

Ótimo texto. continuar lendo